12.3.14

Into the Wild [livro + filme]


*** ATENÇÃO: não tem como falar dessa história sem dar spoilers, então se você ainda não viu o filme ou leu o livro, aconselho a não ler este post! ***

O livro escolhido para a leitura do Clube do Livro de fevereiro foi Na Natureza Selvagem - escrito pelo jornalista e alpinista Jon Krakauer - para a minha sorte, pois esse livro já estava na minha lista de livros para ler em 2014. Aliás, esse é um dos livros que eu mais empurrei, mas sempre foi um dos que mais quis ler também, e como a tecnologia é algo mágico, depois que eu comprei a tablet (e pude baixar vários livros) passei a ter acesso a muita coisa.

O livro conta a história verídica de Chris McCandles, um jovem de 21 anos recém formado na faculdade, que resolve cair na estrada para fugir da má relação que tem com a família, e com medo que a sociedade o engula e o cuspa em um biombo em alguma empresa corporativa das 8h as 18h. Alex Supertramp* (o nome "de estrada" que adotou) é leitor de escritores como Jack London, Thoreau e Tolstoi. Culto e educado, deixa sempre claro que adotou esse tipo de vida por opção e chama a atenção por onde passa por não se parecer com um viajante comum. Fazendo muitas amizades pelo caminho, Supertramp resolve queimar dinheiro, deixar seu carro para trás, para viver da forma mais pura possível, sem influência dos dogmas da sociedade. O seu grande objetivo é terminar essa viagem no Alasca,
passar uns meses recluso, sem contato com seres humanos e caçando seu próprio alimento.



Esse livro resultou em um filme dirigido por ninguém menos do que Sean Penn, um dos caras mais fodas de Hollywood, e conta com Emile Hirsch como Christopher McCandless. O filme é sensível e traz uma imagem fiel de Supertramp, um tipo de herói romântico, um garoto que acredita em seus ideais acima de tudo, vê a sociedade como algo doentio e que a maioria das pessoas não sabe lidar - o que normalmente resulta em relacionamentos desgastantes.

Acho difícil encontrar alguma pessoa que não tenha assistido Into the Wild e não tenha ficado impressionada, querendo botar uma mochila nas costas para viajar sem rumo. Porém, quando passa o momento de excitação pela beleza do filme e a tristeza da história de Supertramp, passamos a entender que, na verdade, Chris McCandles é uma figura fruto do século XX que vê a sociedade sem filtros, como algo absurdo. É difícil pensar demais, entender demais, questionar demais, pois a gente nunca está em paz. Chris procurava uma felicidade que não estava entre aquelas pessoas, aqueles prédios e aqueles empregos. Ele era formado em uma boa faculdade, mas foi feliz trabalhando em uma plantação de trigo por achar o trabalho nobre por si só. A única coisa que ele queria é algo que o mantivesse em seu objetivo: o Alasca.

The freedom and simple beauty is too good to pass up…

Quando Chris chega no seu objetivo final, no auge do inverno, atravessa um rio que é pouco mais que uns fios de água, e as coisas dão certo... ele está emagrecendo e o estoque de arroz vai rápido, mas ele se sente feliz e realizado. Depois de um tempo de satisfação espiritual e completa, a vontade de voltar a estrada bate forte e Chris bota a mochila nas costas e decide ir embora. Porém, ele não encontra fios de água, mas, sim, um rio cheio com uma correnteza forte, no auge do seu vigor. Preso na natureza selvagem, ele volta ao ônibus mágico (o famoso ônibus que ele encontrou nas suas primeiras semanas no Alasca e onde se alojou). O tempo passa e sem conseguir caçar, morrendo de fome, Chris passa a comer sementes e frutos que encontra na selva - com a ajuda do seu livro de frutos selvagens comestíveis - mas, mesmo com a ajuda do livro, come frutos envenenados.

No livro, Jon Krakauer deixa bem claro que a morte de Chris foi uma junção de vários fatores, e não apenas o fato dele ter comido os frutos. Ele já estava magro e debilitado, desnutrido e desesperado por comida, e comer algo venenoso agravou muito seu quadro.



Antes de escrever o livro, Krakauer fez uma matéria para a revista americana Outside, logo depois que Chris foi encontrado, 20 dias depois da sua morte (ironia, né?! o cara passa 1 ano sem ver vivalma e quando morre aparece alguém no ônibus apenas 20 dias depois). Muita repercussão girou em torno da sua matéria e ele recebeu muitas cartas em que pessoas julgavam Chris como ingênuo, imaturo e prepotente por achar que poderia ir viver no Alasca não tendo nenhuma experiência ou preparo, e ainda sobreviver! Eu posso até concordar com esse ponto de vista (que fica muito mais evidente no livro), de que Chris poderia ter sido menos radical e sobrevivido. Carregar um mapa poderia ter salvo sua vida! Mas também o vejo como um homem muito sensível e suscetível, que foi machucado pelo histórico de sua família e que não acreditava mais em nada, além dele mesmo. Todos nós temos ponto fracos e reagimos da nossa forma a eles... Chris teve ótimos dois anos na estrada e fez sua vida valer a pena, tanto que sua mensagem de despedida foi "tive uma ótima vida e não me arrependo de nada".

No mais, acho que a história desse rapaz nos faz pensar nos nossos próprios sonhos e como a vida nos corrompe. Como nos deixamos levar pelos padrões morais e condicionamentos sociais e nos esquecemos de sermos puros e verdadeiros com nós mesmos. Mas também me mostra que ser radical demais pode ser fatal. Ouvir outras pessoas e ponderar sobre as coisas não é deixar de acreditar nos seus ideais, e sim ser prudente. Eu acho que o que Chris me ensinou a não ser impulsiva e egoísta com meus amigos (novos ou velhos) e minha família, e ao mesmo tempo me manter verdadeira comigo mesma e com meus reais anseios na vida. E claro, um deles - talvez o maior deles - é viajar pelo mundo.

PS: não deixem de ouvir a trilha sonora desse filme. É uma das mais bonitas que eu conheço. Eddie Vedder estava inspiradíssimo quando fez as músicas e merece sua atenção!



* Supertramp = andarilho



Dobro da Metade | Veni, vidi, legi - Clube do Livro


2 comentários :

  1. Segundo blog, que participa desse clube do livro que visto essa semana, julgando por ambos posts sobre o mesmo livro.
    Primeiro, acho super legal essa ideia de um clube de leitura, deve ser legal poder debater com pessoas que leram o mesmo que você (:

    Sobre A Natureza Selvagem, eu não li o livro, mas vi o filme e debati muito em cima dele na faculdade. Acho que por ser baseado em uma história real, acaba por fazendo com que haja discussão. E por ser bastante complexo, cada pessoa forma um pensamento diferente sobre a situação.

    Bom final de semana. Bjoo

    http://resenhandosonhos.com

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  2. Amo suas resenhas. <3
    Acho engraçado o fato de tanta gente ter julgado o Chris sem nem menos ter procurado saber a história direito. Claro, tem horas no livro que é frustrante e você pensa que se ele fosse um pouco menos orgulhoso, um pouco menos cheio das ideias, talvez tivesse sobrevivido muito mais facilmente por lá. É horrível pensar na dor que os pais sofreram após a morte dele, e esse foi um dos capítulos que mais gostei no livro e me deixaram extremamente emocionada, e mais ainda pensar que uma pessoa que transformou a vida de tanta gente se foi tão jovem.. Mas acho que é isso, né? Pessoas especiais que tem o poder te influenciar na sua vida de forma positiva realmente tem tempo curto nesse mundo. Sortudo de quem experienciou algum momento do lado delas, ou no caso desse post, dele. :)

    http://www.paleseptember.com

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